segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Dias de chuva em Manaus são assim mesmo.


Até duas semanas atrás o calor era insuportável, chegando à casa dos 38 graus com sensação térmica de 40 na sombra. Não havia maquiagem que durasse muito ou banho que se sustentasse por duas ou três horas. Em questão de minutos, mesmo no mormaço, era muito fácil suar as bicas e sentir o ardume do sol na pele. A cidade, por estar se preparando para a Copa e para virar num futuro bem próximo uma metrópole de proporções generosas, ficou coberta por muita poeira e fumaça das construções e das queimadas. O resultado disso era uma mistura de sal, óleo e pó no corpo não muito confortável que, talvez, se pudéssemos ser fritos, acabaríamos em um tacho junto com jaraquis e tucunarés, para sermos servidos com vinagrete e farinha uarini.


A chuva que deveria ter chegado no Dia de Finados, segundo os mais velhos, estava prevista para o mês de fevereiro, segundo os meteorologistas. E, para surpresa de muitos, chegou no início de dezembro, não dando tempo nem de terminar aquela reforma com o décimo terceiro. Chegou também com toda a força que não estava prevista, pois é ano de El Ñino. E por causa dela, muitos passaram a reclamar.

O trânsito caótico, a sujeira das ruas, a roupa molhada, o frio ganhou um velho Judas: a chuva. O trânsito passou a ter um fluxo que não daria inveja a São Paulo. A sujeira das ruas, que foram meticulosamente acumuladas durante os dias de verão, passaram a entupir os bueiros da cidade. A roupa molhada, o cheiro de macacosuadomortoatapa passou a ser muito comum em ônibus lotados porque fica difícil, nesses dias, enxugar a roupa. Além disso, o frio que acompanha o período da chuva, faz o mais calorento manauara preferir ficar preguiçosamente se embalando em uma rede.

Dias de chuva em Manaus são assim mesmo. Poderia ser o contrário. Pessoas andando mais de bicicleta e o poder público agindo mais de forma preventiva para evitar o rush de uma grande cidade em uma cidade em crescimento. O povo jogando seu lixo em locais adequados para não correr o risco de ter de se deparar com ele em um temporal.

Para evitar a roupa molhada seria bom adotar capas de chuva e, de quebra, para os pés, charmosas galochas. Infelizmente, não temos esse hábito. E, claro, duas ou três horas de sol diárias para secarmos nossas roupas.

Quanto ao frio, ele pode ficar em paz. Serve para aconchegar os corpos e para dormir de conchinha. O problema é só os carapanãs, que insistem em dizer que estão ali zunindo e beliscando. Como não dá para acender uma fogueira embaixo da rede como os antepassados, serve uma utilidade moderna: aqueles repelentes em espiral. É fedorento para eles e muito mais para nós, mas ajuda.

Dias de chuva em Manaus são assim mesmo. E em meio a tantas reclamações, o bom é saber que lá pra maio, começa novamente o verão amazônico pra gente sentir falta da chuva e falar mal do período de estiagem. Esse movimento de eterno retorno percebido no tempo dos gregos, oxalá que permaneça até que a Natureza não permita que os homens atrapalhem de vez.